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ARTIGO
A “antinaturalidade”
do ato de comer carne [1]
POR ALLAN MENEGASSI ZOCOLOTTO [2]
16/06/2010
- Concepções correntes proclamam o vegetarianismo
antinatural por se tratar o ser humano um ser anatômica e
fisiologicamente adaptado ao consumo de carne. Enunciam ainda ser
natural e moralmente justificável esse consumo, por meio do
argumento da cadeia alimentar em que são, os seres humanos,
consumidores carnívoros. Aqui eu afirmo o oposto: a
alimentação humana com ingestão de carne é
‘antinatural’.
1. PARA INÍCIO DE CONVERSA
Importante apontar, antes de qualquer coisa, a impertinência dos
dois argumentos usualmente comunicados, contidos nas linhas
precedentes, quais sejam, (a) adaptação humana ao consumo
de carne e (b) cadeia alimentar, mesmo que não seja esse o
objetivo central do presente texto. Aqui, preocupo-me mais com o que
pode ser nomeado “estrato psicológico-subjetivo” do
ser humano.
Fácil é contrapor-nos à informação
de que somos carnívoros. Assim como os animais
herbívoros, temos caninos curtos, molares achatados, saliva com
enzimas digestivas, mandíbula com boa movimentação
lateral, pequena abertura da boca (em relação ao tamanho
da cabeça), menor acidez estomacal, sistema digestivo longo e
unhas achatadas. Também suamos pela pele e não contamos
com visão noturna ou agilidade suficiente para a caça,
nem mandíbula e maxilar proeminentes.
Os animais carnívoros, por sua vez, têm caninos grandes e
afiados e garras para capturar e rasgar a carne de suas presas. Eles
não mastigam seu alimento e seus intestinos são curtos e
secretam enzimas digestivas muito ácidas.
As características biológicas humanas não deixam
dúvidas. Distinguimo-nos sobremaneira dos carnívoros e
não apenas destes. Milton R. Mills, MD, afirma que os seres
humanos têm a estrutura de um herbívoro típico e,
ao contrário do que comumente se fala, não apresentam as
características mistas encontradas em onívoros como ursos
e guaxinins. Comparando os tratos gastrointestinais de seres humanos,
carnívoros, herbívoros e onívoros,
concluímos que o corpo humano é concebido para uma dieta
alimentar estritamente vegetal.[3]
Ainda que, por tradição, consumamos carne, não
quer dizer que sejamos adaptados a esse fim. Há quem faça
uso de cigarros, por exemplo, o que não significa serem
preparados para isso. A verdade é que o corpo humano suporta, em
alguma medida (em alguns casos e sujeitos mais, noutros menos), os maus
hábitos alimentares e de vida como um todo.
A imagem de um animal morto causa-nos repugnância e não
salivação. Não nos empenhamos em matar e comer
cruas nossas presas como legítimos carnívoros o fazem.
Além disso, a ingestão não-letal de carne em
humanos só é possível quando antecedida por
preparo (assar, cozinhar, condimentar, etc.) capaz de assegurar a
não-contaminação por microorganismos. Mesmo que os
nossos antepassados tenham sido carnívoros ou onívoros, a
evolução e a seleção natural fizeram
permanecer hoje um tipo de hominídeo anatômica e
fisiologicamente não-carnívoro, herbívoro para ser
mais exato.
De acordo com Sônia Felipe[4], podemos afirmar que a
utilização do argumento da cadeia alimentar também
é deveras irrefletida. “Não procede afirmar que
‘na natureza’ ‘os animais’ se comem uns aos
outros. Correto seria dizer que, na natureza, alguns animais comem
outros, enquanto a quase totalidade dos demais não o faz. A
‘natureza’ não dá lição alguma
de moralidade, pois não oferece parâmetro algum segundo o
qual se possa orientar ações livres.”[5]
Além de tudo isso, precisamos tomar bastante cuidado sempre que
nos servimos de vocábulos como ‘natural’ e
‘antinatural’ para referirmo-nos ao que, porventura, diga
respeito, ou não, ao Humano. Ainda que sejamos
constituídos de matéria tão orgânica quanto
quaisquer outros seres do planeta, nós, seres humanos,
pertencemos muito mais ao campo do social e cultural, que se nomeia,
comumente, e, pode-se acrescentar, de modo não muito claro,
‘mundo humano’.
O tornar-se homem ou mulher[6], ainda que determinado, em parte, pela
corporeidade, não se encontra regido, integralmente, por ela. O
homem e a mulher se fazem de um jeito ou de outro, também porque
a educação tende-os para isso ou aquilo. Temos
então que, socioculturalmente, se aprende a fazer-se humano.
Não comungo, em absoluto, de um posicionamento determinista. Por
mais fortes que sejam os “tendenciosismos”, há
sempre a potência humana (em alguma medida) de diferir e
engendrar outros “eus”, porém, não há
como negar que grande é o número de elementos que
influenciam marcantemente a vida de cada indivíduo.
Mesmo sabendo das limitações do emprego de
vocábulos com radical ‘natural’, parto do lugar de
quem concebe um “natural humano” — ainda que
não o mesmo em todos os locais do globo nem em todos os
períodos da história — e que, tão mais se
esforce para discutir acerca dos atributos desse “homem
essencial”, melhor.
Centro meus argumentos de defesa da concepção da
‘antinaturalidade’ do ato de comer carne, em duas frentes:
(a) “natureza humana em realização”
(referência à infância) e (b) “natureza humana
em manifestação” (ou “sinais da natureza
roubada” ou ainda “indícios da natureza
inebriada” — referência ao apego burlador e à
ilusão autoinfligida).
De início, apresento as referências à
infância e aos jeitos-de-ser criança que por mais que se
façam distintos em todos os casos reais (e sempre se fazem), de
sua média se pode emular uma “criança
genérica” que aqui servirá de “tipo
ideal” (em sentido weberiano) e que pode dizer da “natureza
histórica do homem”, isto é, da “natureza
recente do homem médio de hoje”.[7]
2. O NATURAL DO HUMANO
2.1. O “outro necessário”
É da natureza humana sensibilizar-se, afinar-se, apegar-se.
É natural criar vínculos, estender-se ao outro, apelar
cuidados, lançar-se aos braços alheios e tomar nos
braços próprios. O bebê, frágil, indefeso e
incapaz não consegue manter-se vivo quando em isolamento, de
modo independente de quem o tome no colo e o trate. Carece do outro
tanto para manter-se vivo quanto para tornar-se humano. É
biologicamente dependente, biologicamente sociável. Necessita de
quem se ocupe dele. Necessita de quem o intronize à Humanidade.
É de praxe discutir o ‘aprender a ser humano’ que se
faz no meio e por meio de humanos — discussão sobremaneira
pertinente e a que cientistas sociais se habilitam (ou se arrogam
habilitados) a tocar.
O bebezinho humano tem necessidade de contato, cuidado e carinho e,
só quando ela é atendida, o projeto de Humanidade que
nele se encerra poder-se-á por em operância, não no
sentido de um acontecimento prenunciado, e sim de uma constante
realização (devir). Nos intercursos dessa
“imprescindibilidade humana” (o outro necessário) os
laços entre ‘zelado’ e ‘zelador’
são construídos e estreitados.
Por mais íntimos que sejam os ligames que vinculem
‘gerado’ e ‘geradora’ (filho e mãe
biológica), o que pode haver de mais forte são os
laços medrados entre ‘quem é cuidado’ e
‘quem cuida’, independentemente de quem seja o
‘cuidador’ e da vinculação
“sanguínea” entre esse e o imaturo sob sua guarda. A
criança se apega ao seu diligente responsável de modo
intenso e verdadeiro. O alimentar, o aconchegar, o embalar, o
acalentar, o ninar, o engraçar, tornam séria a
relação entre ambos. A correspondência criada nos
interstícios do par é deveras substanciosa para requerer
“credenciais gênicas”. Basta o querer e ser querido e
tem-se tudo. Disso pega a vida.
Em estado inicial, o “filhote de humano” está de
todo aberto e, mais que isso, é todo reclames de enlace,
apreço e filiação e sua compleição
física e seus caracteres psicológicos lhes conferem os
atributos mesmos capazes de fidelizar (ou tentá-lo) o humano
maduro: é pequenino, inofensivo e gracioso. Pela sua natureza
(de incapaz), o bebê não escolhe quem dele se ocupa e dele
cuida e essa contingência faz deitar raízes o
relacionamento eventual inicial e, tanto quanto o responsável se
lhe faça solícito, ele constituir-se-á grato e
fiel. Como tratamos de tipos ideais, extraímos quaisquer pontos
“falhos” e destoantes.
2.2. O “outro desejável” e o “outro envolvente”
Com o enunciado suposto acima, acrescido dos argumentos apresentados a
seguir, subsidia-se a consideração acerca da
“natureza humana” que defendo aqui: a precisão de
vínculo (outro necessário), a querença de
vínculo (outro desejável) e a potência de
vínculo (outro envolvente).[8]
Não precisamos fazer nenhum salto hipotético para
concebermos que os vínculos que podem acontecer entre humanos
(vínculos intraespecíficos), podem acontecer
também (e acontecem) entre outros seres (vínculos
interespecíficos). E falo disso para além dos casos de
‘meninos selvagens’[9] constantes da literatura
científica.
Os vínculos criados não são exclusivos de ocorrer
entre ‘tratador’ e ‘tratado’. Os
vínculos são criáveis entre outros para
além dessa relação inicial e
imprescindível. O ser humano não possui um quantitativo
de elos possíveis de realizar-se tampouco um sensor de
discriminação de possíveis elos responsável
por distinguir “o joio do trigo”, quem merece de quem
não merece sua atenção. Os círculos de
confiança e relação são expansíveis
e com frequência se expandem. De modo natural, no fluxo
fácil do desenvolver-se, o ser em humanização (em
realização), vai-se “elando” (criando elos e
elações — “elevações de
espírito, excitações emotivas”).
Aliamo-nos, afinamo-nos e fidelizamo-nos, e nossas alianças,
afinidades e fidelidades não são restritivas, mas o justo
contrário: são abertas e renováveis, provocantes e
rizomáticas (“polifrontais”). Aliamo-nos,
afinamo-nos e fidelizamo-nos, teórica e naturalmente, com
qualquer ser, humano ou não.
2.3. O mundo em experiência
Toda criança tem ânsia de totalidade e não lhe
basta ver, quer pegar, cheirar, lamber, comer, integrar. À
medida que crescem, as crianças (imagino não apenas as de
tradição judaico-cristã ocidental) tomam o
“mundo inteiro” (aquelas porções que lhe
são imediatas) em experimentação. Desde que o
“novinho humano” apercebe-se de um “objeto”
qualquer, se empenha para com ele. Toca nos pedriscos, arranca flores,
aperta o bichinho, agarra o colega.
Todo o mundo o encanta (“gente, bicho e planta”), mas em
especial, os que lhe provocam, os que não se passivam, os que se
mexem e reclamam soltura, (gente e bicho, portanto).
Uma folha de árvore por mais colorida, macia, cheirosa e
ricamente sinestesiante (devido todas as sensações capaz
de provocar), logo se torna monótona e desinteressante aos olhos
da criança. O maior detentor de atenções é
o explicitamente vivo, o ativo, o autônomo prático, o que
mexe, vira, pula, grita, chora. Esse sim se torna um desafio e tanto.
Com esse, o novinho humano trata de vincular-se mais porque se parece
consigo, responde aos seus “implicos”, reage aos seus
ditames. Provoca-lhe em sua humanidade em ativação.
O toque, o enlace e o amasso são alguns dos elementos
básicos da infância. As crianças não vibram
e clamam por um animalzinho quando este se encontra em seu campo de
visão? Não brincam com ele e o tomam no colo,
perigosamente, inclusive, para a manutenção da vida de
qualquer um dos dois? Isso se pode explicar, a meu ver, pelo
egocentrismo inicial (“o mundo sou eu”) ou pelo desejo
“pan-elacionista” (de elar-se — criar elos —
com tudo) que aos poucos se vão amestrando e dando o imaturo a
habilitar-se a humano (quando, à medida que consegue operar com
o que lhe é ensinado, lhe aceitam como membro da família,
comunidade, etc.).
2.4. A estima entre “mesmos-orgânicos”
A criança se afina com os animais porque deles se sente igual
(como animais que todos somos), porque ainda não assimilou o
antropocentrismo que vige o mundo adulto (muito embora já esteja
a assimilar, devido a educação a que se vê
obrigada). Ela brinca com os bichos como quem brinca com outras
crianças, ela papeia com eles (ou tão-somente chia e
balbucia) e os toca e abraça. Ela se amiga dum animalzinho e
pede aos pais ou responsáveis que lhe permitam levá-lo
para casa. Ela se cerca dele, rindo e felicitando-se profundamente.
Chora sua morte, sua fuga ou sua retirada. Também briga e
discute com ele. Relaciona-se de igual para igual.
O “amor”[10] por animais começa cedo em cada um de
nós como decorrência natural do próprio
humanizar-se: identificar-se, elar-se e fidelizar-se a todo aquele que
lhe partilha a característica da senciência[11]. Somente
desse modo, tornamo-nos “humanos” para com todos os humanos
porque somente quando assumimos essa característica como o que
conta para a integração à comunidade moral (quem
têm direitos) é que nos irmanamos a todos os humanos.
Abrindo-nos a todos os humanos, abrimo-nos, por tabela, a todos os
animais sencientes. É no mesmo tecido moral que se costuram os
direitos de humanos e animais e, mais que isso, apenas se os
critérios adotados para a atribuição de direitos
aos animais forem aceitos (sensibilidade e consciência de si)
é que se podem legitimar os direitos humanos, evitando
critérios excludentes como linguagem e racionalidade ou
capacidade de reivindicar direitos. (REGAN apud OLIVEIRA, 2004,
p.285)[12].
No processo do “naturalmente humanizar-se”,
‘humano’ não é diferido de
‘animal’. Somos todos “mesmos-orgânicos”
(igualmente orgânicos, corpóreos, autônomos
práticos, sencientes). Somos igualmente sensíveis
à dor, ao prazer, à tristeza e à felicidade e
assim nos entendemos quando criança porque ainda não
antropocentrados e assim sentir-nos-íamos, quando adultos, caso
o programa de antropocentrização não funcionasse
conosco. O natural é a ética senciocêntrica[13]
vingar pois ela é lógica e diretamente aplicável
às experiências que preenchem nossos dias desde a
infância.
3. O HUMANO ARTIFICIAL
A sensibilidade é o que há de mais natural no ser humano
e o que primeiro e certeiramente se manifesta.[14] Naturalmente, o ser
humano vai, desde criança, se filiando e vinculando aos animais
(tanto quanto aos humanos), vai lhes partilhando vivências e
graças. Entretanto, aos poucos, o que é vínculo
geral (entre “iguais”, apesar da espécie) torna-se
vínculo particular (entre “iguais”, dentro da
espécie). O antropocentrismo vai-se construindo e fixando por
intermédio do “culto humano”, do adestramento a ser
humano que se arroga a coroa da
Evolução/Criação. Desse modo, quem era
amigo (o animal), naturalmente amigo, sensivelmente amigo, logicamente
amigo é transformado em alimento, tradicionalmente alimento,
costumeiramente alimento, convenientemente alimento.
A criança no meio rural brinca com a “cocó”
(galinha) em uma hora e, em outra, a come (lhe é dado de comer).
Destarte, a criança vai naturalizando o que não é
natural; a criança vai internalizando o que lhe é
externo; ela vai concebendo como cabível o que não traz
em si, o que não sabe nem sente per se. Ela aos poucos
não mais vê problema nisso e vai rompendo os
vínculos que naturalmente se construíram entre ela e seus
amigos animais “iguais”. Comer animais traveste-se, dessa
maneira, de ato certo, bom e natural. Rompendo com o que traz consigo,
naturalmente em seu íntimo, o ser humano torna-se homem
artificial.
Se não fossem desatados pela educação
(artificialização), os elos que se fazem entre ela e seus
amigos animais, não precisaria ser dito à criança
“não se deve comer carne” porque comer carne
não seria nem mesmo uma hipótese credível de
consideração. “Como poderia sequer pensar em
alimentar-me de quem me é amigo?” proclamariam as
crianças não-antropocêntricas crescidas.
Entretanto, o que traz consigo em seu íntimo (o vínculo
fácil e farto com animais), não é permitido
consolidar-se e por isso entra em óbito
(mortificação, esquecimento), ou antes, em hipostenia
(debilitação, silenciamento).
4. OS SINAIS DA NATUREZA ROUBADA
4.1. Os rompantes de vínculo
Agora, deixemos nossa criança genérica e chamemos, para
ilustrar o que se pretende afirmar, um pequeno camponês (caso
real) que planta sua horta e cria seus animais para a
subsistência própria e de sua família. Talvez seja
esse um bom exemplo para aprofundarmos o debate acerca dos sinais do
“homem natural” que restam em cada um apesar da
artificialidade do “homem antropocêntrico” implantado
e dominante em nós.
Esse homem simples do meio rural cria um porco por vez no chiqueiro
para servir de provimento de carne tão logo o peso dele denuncie
maturidade e a hora do abate. A ocasião é sempre de uma
grande festividade: Natal, Páscoa, aniversário,
casamento, etc.
É sempre o velho senhor que se encarrega da
criação do porquinho, alimenta-o e dessedenta-o, e,
naturalmente, tanto por descuido (outro envolvente) quanto por vontade
(outro desejável), dá vazão ao que carrega em si:
a precisão, a querença e a potência de
vínculo.
O porquinho tem seu próprio nome. O velho senhor brinca e
conversa com ele, acarinha-o, traz relva macia, trata-o com zelo como
faz a um ente especial. O tempo vai passando e o porquinho crescendo e
engordando, do mesmo modo que a amizade que une senhor e animal. O
velho homem se apega cada vez mais burlando o prescrito pela sociedade.
No entanto, a amizade, “nascida de enxerida”,
“bobageira infantil”, conforme dizem os
“homens” já formados (leia-se antropocentrados),
não deve nem pode prosseguir.
Perguntam ao velho senhor como vai ser na hora do abate do animal, ele
desconversa querendo não pensar nisso, não adiantar o
passo… mas acaba soltando: “Vou pra cidade no dia…
e volto bêbado!” Deixará o encargo de matar o bicho
a outrem. Não seria capaz de fazê-lo. Seria
traição. “Torna-te eternamente responsável
por aquilo que cativas” diz Saint-Exupéry. O velho
campônio sabe disso e sente assim também.
Esse é apenas um caso representativo de inumeráveis
outros, facilmente registráveis. Basta conversar com quem vive
cercado de animais tratando-os, mesmo que para fins comerciais, mas,
especialmente, em situações de criação de
subsistência. Orelha-torta, Manchada, Cotó, Perna-preta,
Manquinho… todos animais que fazem dos humanos seus amigos, os
conquistam o coração e os tiram a coragem e a vontade de
matar-lhes.
A amizade sempre pega. No entanto, não de enxerida que é,
mas de natural (imanente) e desejosa (transcendente) e ela só
não se realiza quando, apesar de todos seus esforços (e
pode acreditar que ela é fera nisso) o homem teima em
matá-la em si. Em alguns casos, mortifica-se o
“amigar” até um ponto que conforme se diz,
não mais seja possível deixá-lo renascer — o
homem artificial total (há que se refletir sobre essa suposta
irreversibilidade).
Quem trabalha em fazendas industriais de criação de
animais, em abatedouros e frigoríficos já se
dessensibilizou por completo, ou está em vias disso. Já
deixou (foi preciso deixar) morrer em si esse lastro natural que lhe
acompanha desde que se fez gente. Os vínculos são
naturalmente “vínculos gerais”, entre
“iguais” apesar da espécie; socialmente é que
eles assumem o tipo “vínculos particulares”,
socialmente é que se internaliza o especismo (forma
discriminatória pela qual seres humanos tratam seres de outras
espécies animais como se estes existissem exclusivamente para
servir aos interesses daqueles)[15].
Não pretendo aqui fazer juízo de valor (não tenho
esse poder) sobre quem mata animais e/ou se alimenta com seus restos,
até porque, conforme se sabe, a maciça maioria dos
trabalhadores (de fazendas de criação intensiva, de
abatedouros e frigoríficos, inclusive) não tem outra
opção de trabalho (a exploração de animais
e a exploração humana são faces da mesma
realidade) e desde criança são educados para acharem
natural e normal esses ofícios e essa dieta. Vivem imersos na
artificialidade (antinaturalidade) do homem que é explorado e
que explora — a naturalização da
exploração.
4.2. O esquecimento forçado
Outro caso que pode ser trazido aqui é o das pessoas que
não suportam matar ou sequer ver matar um animal porque, caso
contrário, conforme elas mesmas afirmam, deixariam de ter
coragem de comer carne. Isso só pode fazer-nos pensar numa
coisa. Não se quer ver porque, caso contrário, a sua
visão traria a realidade conhecida e que se tenta,
forçosamente, esquecer (só se tenta esquecer o que se
sabe). As pessoas esforçam-se continuamente nessa empreitada.
Há ainda o caso dos que fazem isso por outros, por exemplo, pais
que pensando fazer o “bem”, não dizem a verdade da
carne: o que ela é, de onde ela vem, como é
“produzida”.
Não são nacos de carne que estão aí para o
deleite e a (suposta) saúde dos seres humanos, mas CORTES,
PEDAÇOS arrancados de seres com os quais anteriormente
compartilhava a vida (cadáveres, portanto). Isso é o que
se mascara (tenta mascarar) e se ativamente esquece (tenta esquecer).
No entanto, não importa em quantas partes foi cortado, nem de
quais modos foi preparado, é sempre um corpo morto, um corpo
drenado de vida o que está aí.
“A carne não existe.”[16] O ato de comer carne passa
pela transformação de animais em carne o que, por sua
vez, depende do inebriamento da ‘natureza humana’, qual
seja, sensibilizar-se, apegar-se, fidelizar-se, irmanar-se. Somente
matando em si os naturais elos e desejos de bemquerença para com
os animais é que se pode reduzi-los a um monte de carne e se
consegue comê-lo.
A sugestão de que cada qual cace e prepare o animal para
alimentar-se dele causa repulsa à maioria das pessoas. Fuga,
defesa, luta, choro, sangue é o que se vê em
caçadas e abates de animais. Não creia que se perde a
vida por entrega. Não há resignação da
parte deles. É somente depois de um embate desesperado por
manter-se vivo que a vida se lhes é roubada de seus condenados
corpos.
Entretanto, não é isso que se encontra nos supermercados
e não é isso que as pessoas querem saber. Elas se
auto-infligem a ilusão da “vaquinha feliz”, da
“galinha poedeira”, do “porquinho asseado”, da
“lida gentil”, da “morte humanitária”,
da “colheita da carne” como se colhe um fruto maduro do
pé, sem traumas, sem gritos, sem dor, nem sangue. “Doce
ilusão”.
“O ato de matar um animal é, em si, perturbador. Dizem
que, se tivéssemos que matar nossa própria
‘carne’, seríamos todos vegetarianos. Com certeza,
muitas poucas pessoas já visitaram um abatedouro e filmes que
mostram o interior dos mesmos não são populares na TV. As
pessoas esperam que a carne que compram venha de um animal que morreu
sem dor. Mas eles não querem saber da verdade.” (trecho do
documentário Terráqueos [17]). Uma pergunta provocante
aos que se alimentam de “carne limpa” (comprada) pode ser
aqui reproduzida: “se você não tem coragem de matar,
por que tem coragem de comer?”.
5. CONCLUINDO
Não propus a discussão da evolução da
espécie humana e do papel que o consumo de carne, eventualmente,
tenha desempenhado nesse processo e sim da “natureza atual e
local” do ser humano e do que diz respeito, em maior ou menor
grau, às experiências de cada um de nós, desde a
infância. Também não se trata de eleger culpados
uma vez que as causas dos jeitos-de-ser do Hoje estão deveras
emaranhadas no Ontem. Não se pode mudar o passado. E o presente
não pode sê-lo de uma tacada só. PODEMOS pensar o
presente e DEVEMOS projetar um futuro mais honesto às
“sementes” trazidas no âmago do “homem natural
médio de hoje”.
Talvez a realidade não se preste a acabados pensamentos e
teorizações reducionistas tais como as que se passam
aqui, mas julguei por bem arriscar-me a lançar essas palavras
à folha com o fito de apresentar um contradiscurso mais que a
tempo (se há quem defenda a ‘naturalidade’ do ato de
comer carne, defendo a ‘antinaturalidade’ desse mesmo ato),
até porque, se o Real é superior à capacidade de
dele acercar-se por uma única via (explicação
una), melhor provocarmos a proliferação de
“altervisões” e explicações
dissidentes, não nos contentando com o batido.
Crianças que se filiam aos animais, criadores que se apegam
às suas criações e consumidores que precisam se
iludir para manter seus hábitos e confortos me parecem
indícios importantes que não podem nem devem ser
negligenciados. Esses são sinais que nos dizem alguma coisa.
Não é natural o que se precisa forçar mediante o
mascaramento da realidade ou a mortificação de
tendências. Não é natural o que imprescinde de
conformação e consolidação
contínuas. ‘Natureza’ que se mantêm por
mentiras e omissões não é natureza, é
forjamento.
Trazemos conosco, desde a infância, o apreço aos animais
de modo que torná-los objetos, meios para fins de qualquer ordem
não pode ser chamado natural. Natural é seu oposto: o
modo-de-vida vegetariano estrito (vegano) que reconhece os animais como
fins-em-si-mesmos tanto quanto você e eu o somos.
_______________________________________________
NOTAS
[1] A elaboração do presente texto se deveu a
várias críticas e sugestões de familiares e amigos.
[2] Vegano, membro do Grupo Abolicionista pela Libertação
Animal (GALA), formado em Pedagogia (UFES, 2007) e graduando em
Ciências Sociais (UFES). E-mail: allanzocolotto@yahoo.com.br
[3] MILLS, Milton. The comparative anatomy of eating. Disponível em:
http://www.earthsave.ca/files/anatomy.pdf. Acesso em: 03 out. 2009.
[4] Doutora em Teoria Política e Filosofia Moral pela
Universidade de Konstanz, Alemanha (1991) e grande promotora do
veganismo no Brasil.
[5] FELIPE, Sônia T. Ética predatória? In: Pensata
animal: revista de direitos dos animais. 2009. Disponível em:
http://www.pensataanimal.net. Acesso em: 01 out. 2009.
[6] Não me ponho a discutir a temática ‘sexo e
gênero’. Apenas para deixar o texto mais fluido é
que escrevi tão-somente “homem e mulher”. O certo
teria sido servir-me da expressão “homem e mulher e algo
mais”.
[7] Chamo “natureza histórica do homem”,
“natureza recente do homem médio de hoje” ou
“natureza atual e local” o que em, alguma medida, num dado
período histórico e determinado lócus
geográfico, pode ser encontrado no estrato
psicológico-subjetivo de cada sujeito. Por mais que sejamos
diferentes uns dos outros, compartilhamos algumas
concepções, trejeitos e inclinações junto
aos demais seres humanos locados no mesmo tempo-espaço. A
concepção de “consciência coletiva”
talvez sirva para aproximarmo-nos do entendimento aqui proposto.
[8] Para além do outro necessário (determinado pela
precisão de vínculos sem os quais não há
humano) está, como natural do humano, o desejo, a vontade, a
querença, a não-satisfação plena, a
incompletude assumida e a gula de Ser mais, o não-contentamento
completo, a-fome-a-sede-o-sono-o-tesão
não-saciáveis de uma vez por todas. Esse “quero
mais” é o fluxo do e para o outro desejável
(nomeia-se abulia a ausência de vontade, a perda total ou parcial
de ânimo, o estado de apatia generalizada não-salutar).
Somado a isso tudo existe ainda o outro envolvente (ou cativante),
aquele que não é convidado, que não se espera e,
mesmo assim, se aproxima, se encosta, vai ficando e, de repente, quando
se percebe, já se incluiu e foi incluído.
[9] ‘Meninos selvagens’ são crianças que, por
algum motivo, ausentaram-se do convívio com humanos e acabaram
sendo criadas, acredita-se, por fêmeas de mamíferos em
gestação e amamentação (lobas, ursas,
macacas, cabras, etc.), como seus próprios filhotes. Quando
reencontradas, estabelecido o convívio e realizadas
análises, essas crianças acendem o debate acerca do que
sejam ‘atributos humanos’ e da casualidade da
situação, caminhando no sentido de confirmar que
“recebemos a natureza por herança, mas a cultura
não nos pode ser dada senão pela
educação”.
(TRUFFAUT, François. In: GONÇALVES, Jorge; PEIXOTO, Maria
Alexandra. O menino selvagem: estudo do caso de uma criança
retratado no filme “O menino selvagem” de François
Truffaut. Disponível em: http://www.educ.fc.ul.pt. Acesso em: 03. out. 2009.)
[10] Relação afetuoso-emotiva construída
sócio-históricamente mas deveras influenciada pelo
“lastro natural” que jaz em todos.
[11] Senciência refere-se à sensibilidade e à
consciência. Diz da capacidade que os animais dotados de sistema
nervoso central (vertebrados superiores — mamíferos, aves,
répteis, anfíbios e peixes) possuem de sentir dor, medo,
alegria, prazer, estresse, memória e até saudades. Com
base nisso, Peter Singer sintetizou o princípio da igual
consideração dos interesses semelhantes, pelo qual
propõe que todos os interesses semelhantes sejam considerados de
modo semelhante. “Interesses são interesses e devem ser
considerados por igual — sejam eles os interesses de seres
humanos ou de animais, com ou sem consciência de si.”
Alguns teóricos concebem que o direito à vida deve ser
exclusivo dos que têm autoconsciência. Contudo, quando
não temos indícios científicos de que um ser tem
consciência de si devemos dar a ele o benefício da
dúvida. Um ser sensível, autoconsciente ou não,
é um ser de interesses e preferências. Por ser capaz de
sentir dor ou alguma fruição, num estado doloroso tem a
preferência de ter sua dor aliviada e merecem tê-la.
(TONETTO, Milene Consenso. Do valor da vida senciente e autoconsciente.
In: ethic@, Florianópolis, v.3, n.3, p. 207-222, Dez 2004.
Disponível em: http://www.cfh.ufsc.br/ethic@/ET33ART1.pdf. Acesso em: 03. out. 2009.)
[12] OLIVEIRA, Gabriela Dias de. A teoria dos direitos animais humanos
e não-humanos, de Tom Regan. In: ethic@, Florianópolis,
v.3, n.3, p. 283-299, Dez 2004. Disponível em:
http://www.cfh.ufsc.br/ethic@/ET33ART6.pdf. Acesso em: 03. out. 2009.
[13] Senciocentrismo: senciência como critério definidor da pertinência à comunidade moral.
(FELIPE, Sônia T. Antropocentrismo, senciocentrismo,
ecocentrismo, biocentrismo. In: Questão de ética.
Agência de notícias de Direitos Animais. Disponível
em:
http://www.anda.jor.br/?p=19279. Acesso em: 03. out. 2009.)
[14] A racionalidade e a linguagem vão nascendo,
progressivamente, em “humanos paradigmáticos”.
Devemos lembrar daqueles cujas características os tornam
diferentes do que se concebe como “humano típico”
(crianças pequenas, portadores de necessidades especiais,
indivíduos com comprometimentos psicológicos, etc.) e,
apesar disso, não se cogita a possibilidade de excluí-los
do âmbito das nossas considerações morais, muito
pelo contrário, a eles é devotado um cuidado todo
especial.
[15] O termo foi criado pelo cientista e filósofo Richard D.
Ryder na década de 1970 e divulgado por Peter Singer desde 1975
ao argumentar em defesa do emprego do princípio da igual
consideração de interesses semelhantes no tratamento dos
animais. (FELIPE. In: TONETTO, M. C. Do valor da vida senciente e
autoconsciente. In: ethic@, Florianópolis, v.3, n.3, p. 207-222,
Dez 2004. Disponível em:
http://www.cfh.ufsc.br/ethic@/ET33ART1.pdf. Acesso em: 03. out. 2009.
[16] “A carne não existe” no sentido de que sua
verdade é “maquiada”. A existência da carne
depende de condições bem controladas, é um
artifício, uma invenção, uma
simulação, uma encenação. Basta lembrar das
embalagens dos produtos de origem animal: nelas aparecem
“vaquinhas felizes”, “frangos sorridentes”,
etc., todas imagens de uma realidade fictícia, carregadas de um
“romantismo rural”. A “carne” depende, para
continuar a existir, de um processo ativo de rompimento com o que se
sabe e sente. Depende da exploração e da morte
explícitas de animais cujas sensibilidade e autenticidade dos
sentimentos são conhecidas. “Como podemos provar que os
animais sentem dor e prazer?” Poderiam perguntar. Ora, a mesma
pergunta pode ser feita para questionar como sabemos que outro humano
sente dor. Se nunca sentimos a dor do outro, como sabermos se ela
é real? A ciência comprova que se um ser possui um sistema
nervoso central e um cérebro este ser não somente sente
dor como também é ciente dessa dor. “[...]
Além do mais, todos sabemos que quando se chuta um cão,
ele late; quando se marca um cavalo a ferro quente, ele grita e faz
expressões faciais demonstrando sua agonia e quando se mata um
porco, ele grita e se debate. Animais não são meras
máquinas que respondem com gritos artificiais por ajuda, muito
pelo contrário, eles são capazes de sofrer e têm
uma vida rica em emoções e sentimentos, que são
mais sinceros que os dos humanos. [...]”
(SOCIEDADE MUNDO VEGAN. Dúvidas frequentes, respostas coerentes. Disponível em:
http://www.ipz.org.br/mundovegan/faq. Acesso em: 5. out. 2009.
[17] Earthlings (Terráqueos, em português) é um
documentário estadunidense de 2005, escrito, produzido e
dirigido por Shaun Monson e co-produzido por Persia White. É
narrado pelo ator e ativista dos direitos animais Joaquin Phoenix, que
também é vegano e membro da PETA (People for the Ethical
Treatment of Animals). O filme mostra como funcionam as fazendas
industriais e relata a dependência da humanidade sobre os
animais. Compara o especismo da espécie humana com outras
relações de dominação, como o racismo e o
sexismo. O filme faz estudo detalhado das lojas de animais, das
fábricas de filhotes e dos abrigos para animais, assim como das
fazendas industriais, do comércio de peles e de couro, das
indústrias da diversão e esportes, e finalmente, do uso
médico e científico. Terráqueos usa câmeras
escondidas para detalhar as práticas diárias de algumas
das maiores indústrias do mundo, todas visando o lucro com os
animais.
(Terráqueos. Disponível em: http://pt.wikipedia.org/wiki/Terr%C3%A1queos_(filme). Acesso em: 16 out. 2009.)
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Quem:
Allan Menegassi Zocolotto é vegano, membro do Grupo Abolicionista
pela Libertação Animal (GALA), formado em Pedagogia (UFES, 2007) e
graduando em Ciências Sociais (UFES). E-mail: allanzocolotto@yahoo.com.br
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