Filiado à Sociedade
Mundial de Proteção Animal (WSPA)
ARTIGO Nome aos
bois
ANDRÉ TRIGUEIRO
O Instituto de Defesa do
Consumidor (IDEC)
considerou insuficientes
as informações dadas
pelas três maiores redes
varejistas do país –
Carrefour, Pão de Açúcar
e Wal-Mart – a respeito
da origem da carne
bovina vendida nestes
estabelecimentos.
Através das respostas
enviadas ao Instituto,
chegou-se à conclusão de
que os supermercados não
dispõem hoje de meios
seguros e isentos para
aferir se a produção de
carne causa desmatamento
ou explora mão-de-obra
escrava ou infantil.
A rastreabilidade da
carne é condição
fundamental para a
redução do desmatamento
em uma região onde, de
acordo com o IBGE, a
população de bois dobrou
nos últimos 10 anos,
alcançando a marca de 73
milhões de cabeças de
gado (três vezes
superior à população de
brasileiros que vivem na
área da Amazônia Legal).
Um terço da carne hoje
exportada pelo Brasil
tem origem na Amazônia.
Considerando que 18% da
maior floresta tropical
úmida do mundo já foram
destruídos, e que a
derrubada de árvores na
Amazônia para a abertura
de novos pastos responde
por 80% dessa
devastação, o consumidor
de carne torna-se, na
prática, um avalista
dessa tragédia
ambiental. A
inexistência de carne
certificada inviabiliza
qualquer tentativa de
privilegiar os segmentos
do mercado que atuam na
legalidade em toda a
cadeia produtiva. Os
bons pecuaristas têm a
reputação abalada pela
impunidade dos que atuam
na clandestinidade, e
tornam-se competitivos
apenas porque não
recolhem impostos.
Para piorar a situação,
a construção de
frigoríficos em áreas de
floresta vem sendo
financiada por bancos
oficiais e privados sem
qualquer estudo prévio
que possa revelar com
clareza os impactos
ambientais causados pela
aplicação desses
recursos. Segundo o
relatório produzido pela
organização
não-governamental Amigos
da Terra (“O reino do
gado – uma nova fase na
Pecuarização da Amazônia
Brasileira”), “a
proliferação de
abatedouros, assim como
a compra de muitos deles
por grandes grupos que
os ampliam e equipam, é
financiada
principalmente com apoio
financeiro do BNDES, e
em certa medida de
bancos multilaterais
como o IFC (grupo ligado
ao Banco Mundial) e o
Banco Interamericano de
Desenvolvimento (BID), e
de bancos comerciais,
entre os quais Itaú,
Banco do Brasil e
Bradesco”.
O que deveria valer para
a carne é igualmente
importante para os
mercados de soja e de
madeira. A moratória da
soja – renovada
recentemente – assegura
aos importadores
europeus o fornecimento
de grãos plantados em
áreas onde não houve
desmatamentos recentes
(de 2006 para cá). Por
que não ampliar essa
exigência para o mercado
interno?
No mercado madeireiro, o
exemplo também poderia
vir de cima. Toda a
madeira bruta ou
processada comprada
pelos governos (federal,
estaduais e municipais)
deveria ser certificada,
priorizando-se nas
licitações públicas os
fornecedores que seguem
à risca os planos de
manejo.
A certificação não está
imune à fraude, e
qualquer movimento nesta
direção demandará novos
esforços de fiscalização
e controle. Mas é muito
bem-vindo o compromisso
do Ministério do Meio
Ambiente de mobilizar os
esforços necessários
para identificar a
origem desses produtos e
dividir com o consumidor
a tarefa de proteger a
floresta.
A rigor, quando a
certificação obtida por
meios confiáveis é
entendida como algo
elementar e referencial
nas relações comerciais,
todo e qualquer produto
ou serviço – não apenas
os da Amazônia – são
passíveis de algum selo
que ateste o cumprimento
desse check-list
socioambiental. Imóveis,
veículos, roupas,
eletrodomésticos, tudo o
que demanda uso de
mão-de-obra,
matéria-prima e energia,
merece algum tipo de
certificação. Entramos
no século XXI
experimentando uma crise
ambiental sem
precedentes, com direito
à exploração de crianças
e escravos em linhas de
montagem abomináveis.
Quem compra o resultado
dessa lógica perversa é
responsável por isso.
A sociedade de consumo
possui ferramentas
sofisticadas e
inteligentes de promover
ajustes no mercado em
favor da
sustentabilidade. A
disposição dos
consumidores em comprar
produtos e serviços
sustentáveis já foi
amplamente confirmada
por pesquisas no Brasil,
repetindo um fenômeno
que já se consolidou na
maioria dos países
desenvolvidos. Entender
o consumo como um ato
político é um sinal de
maturidade civilizatória,
de respeito à vida e ao
próximo.
QUEM
André Trigueiro é jornalista e especialista em
Gestão Ambiental..