LEISHMANIOSE
Nossa
justiça é realmente justa?
DANIEL JEREMIAS MELLO
Quanto tempo ficaria em vigor uma lei se ela decretasse que,
para combater a dengue, fossem mortas todas as pessoas com
sintomas dessa doença? Essa lei seria justa?
Imagine que você toma todas as
providências para conter o mosquito da dengue, mas um
vizinho egoísta não cuida de seu quintal, proporcionando as
condições para que o mosquito da dengue se desenvolva.
Então, um dia você fica com febre, vai a um posto de saúde e
um médico local decreta: você está com suspeita de dengue.
Nesse dia, o governo o
condena à morte. A polícia imediatamente vai à sua casa e o
algema. Você é levado à força para o local onde será feita
sua execução, sem direito a tratamento e sem direito a
reclamar.
Pois saiba, essa lei está em vigor desde 1963. Se você
concorda com essa lei, se você acha que ela é justa, por
favor, encerre aqui sua leitura.
A lei em questão, mais
precisamente o decreto aprovado pelo senado federal Nº
51.838 de 14 de março de 1963 existe mesmo, mas seu alvo não
é a dengue. Ela tem como alvo outra doença: a Leishmaniose,
também conhecida como Calazar. A leishmaniose é causada por
um parasita e provoca febre, perda de peso, anemia, inchaço
do fígado e baço, e possivelmente derrames. Se a moléstia
não for tratada pode levar à morte.
A leishmaniose tem algumas
semelhanças com a dengue. É transmitida por um mosquito: O
mosquito-palha. É transmitida quando o mosquito pica um
portador do parasita e se contamina, passando o parasita
adiante a cada nova picada. Também poderia ser prevenida com
a educação da população, e com o combate ao mosquito vetor
da doença, que se desenvolve em locais onde há restos
orgânicos em decomposição, como fezes de animais, galhos e
folhas. Seu diagnóstico também é bastante difícil e
impreciso.
Diferentemente da dengue,
apesar do tratamento, a doença não tem cura. O tratamento
porém pode oferecer vida normal ao portador da doença.
Felizmente, diferente da dengue, existe uma vacina contra a
doença. Ah sim, um detalhe: pesquisas indicam que os
portadores da leishmaniose podem ser os homens, alguns
roedores e animais da família dos canídeos, na qual estão
incluídos nossos melhores amigos: os cachorros. Segundo
apontam essas pesquisas, todos eles podem ser portadores do
parasita e permitir ao mosquito-palha retransmitir a doença.
Mas o que deveria ser um
detalhe, aos olhos egoístas do humano que faz as leis, tem
provocado um verdadeiro assassinato em massa. A lei deveria
proteger os indefesos, dar voz às minorias. Mas a cega
justiça não é capaz de acompanhar a racionalidade e a
ciência: o decreto em questão tem como alvo apenas os
cachorros.
Isso ainda está ocorrendo
no Brasil. Digo “ainda” porque o Brasil é um dos únicos
países do mundo onde ainda se pratica essa barbárie. Em todo
nosso país, milhares de cães diagnosticados como suspeitos
de leishmaniose tem sido sacrificados sumariamente, em
contradição com a própria ciência, pois o nosso país é um
dos pioneiros no planeta nas pesquisas das vacinas contra a
leishmaniose.
O descaso do governo e da
população humana com a prevenção permitiu que essa doença
avançasse do interior aos grandes centros urbanos. Os meios
de comunicação que deveriam informar a população fazem o
contrário: criam um clima de terrorismo e levam a população
a temer aqueles que sempre foram seus companheiros. Nas
clínicas veterinárias, a leishmaniose é rebatizada pelos
donos dos animais: agora ela é a “doença de cachorro que
mata gente”. Então, mais uma vez usando da força ao invés da
racionalidade, o governo é obrigado a tomar medidas, mostrar
ação, mesmo que essa ação tenha apenas efeitos negativos. O
governo envia funcionários do Controle de Zoonoses para
colher o sangue dos animais nas casas das pessoas das
regiões onde ocorre esse terror. Algum tempo depois, os
funcionários voltam, dizendo que o animal está doente e que
deve ser sacrificado. Retiram o animal e desaparecem,
deixando em seu lugar apenas um papel oficial com o
resultado do exame: título de 1:40 – REAGENTE.
O proprietário atônito não
consegue nem chorar diante do choque causado. As crianças
entram em desespero ao verem seus amigos sendo levados por
um estranho e não conseguem nenhuma explicação de seus pais,
que se sentiram impotentes diante do funcionário que afirmou
algumas vezes, que tinha de levar o cão, nem que fosse
necessário chamar a polícia.
E o próprio cachorro
sente-se como nos sentimos ao ler os primeiros parágrafos
desse texto: Por que meus vizinhos e meus donos não
preveniram a doença? Que culpa tenho eu? Estarei mesmo
doente? Não quero morrer, quero ser tratado. Ainda tem a
esperança de que seu dono enfrente a lei como muitos têm
enfrentado. Mas com a resignação e a humildade que é típica
de sua evoluída espécie, simplesmente aceita, pois não há
nada além que possa fazer.
Não bastasse toda essa
injustiça e violência, ainda existe mais um fator agravante:
a eficiência do exame feito para diagnosticar a doença é
altamente questionável. O exame tem alto índice de falhas e
gera muitos resultados como falso-positivos e
falso-negativos. Isso significa que, não é porque o exame
detectou a doença que o cachorro está doente. Mesmo um
animal possivelmente sadio, por lei, deve ser sacrificado. E
são decretados à morte centenas de animais que poderiam
estar sadios em companhia de seus donos.
A única atitude aceitável no momento seria a revogação dessa
lei absurda. Existem vários movimentos nesse sentido,
inclusive um abaixo assinado on-line no site
http://www.ipetitions.com/petition/calazar/index.html.
Não podemos esquecer também
dos cães errantes, que não podem contar com o conforto de um
lar e a proteção de um “dono”. Por isso, a medida mais
justa seria o investimento em prevenção: O mosquito-palha
deveria ser combatido. Todo cachorro deveria ter direito à
vacinação para que não ficasse doente. Todo cachorro
diagnosticado como doente, deveria ser submetido a exames de
contraprova, para ter certeza de seu diagnóstico. Todo
animal comprovadamente doente deveria ter acesso ao
tratamento, para levar uma vida saudável e impedir que
retransmita a doença.
Alguns ainda podem
questionar o parágrafo acima, justificando que o tratamento
é caro e requer monitoração constante. É verdade, concordo.
Mas é uma opção ao assassinato sumário. Infelizmente, a
palavra “caro” salta aos nossos olhos materialistas e soa
muito alta, pois a humanidade não evoluiu o suficiente para
ter com os animais um sentimento de amor familiar. Ao invés
disso, tratamos os cachorros como nossa propriedade. Mas
ainda assim eu pergunto: se fosse com você, preferiria ser
morto ou tratado? Gostaria de ter essa escolha? |