Filiado à Sociedade Mundial
de Proteção Animal (WSPA)
ARTIGO Precisamos frear a fome voraz da sociedade de consumo
JOÃO HENRIQUE MACHADO
8/06/2010
- Olha só que conclusão: o crescimento da riqueza
no
mundo não é bom para a saúde do
planeta.
Obviedade? Sim, mas muita gente ainda não parou para pensar
nisso ou não está nem um pouco preocupada,
efetivamente.
Bem, agora pelo menos é científico. A
proposição de que o consumo não
sustentável
foi comprovada pelo primeiro estudo exaustivo sobre o consumo mundial,
divulgado na semana passada, em Bruxelas, Bélgica.
Encomendado
pela
Comissão Europeia, órgão executivo da
União
Europeia (UE), a pesquisa "Impactos ambientais do consumo e da
produção: produtos e materiais
prioritários"
concluiu que os principais vilões são o consumo
de
combustíveis fósseis e a agricultura, dois dos
setores
mais subsidiados pelos governos.
A pesquisa mostra que se a riqueza mundial dobrar, serão
despejados na atmosfera entre 60% e 80% a mais de dióxido de
carbono. Talvez ainda mais nas economias emergentes, arriscou o
coordenador do estudo, Ernst von Weizsaecker, da Universidade de
Ciência e Tecnologia da Noruega e um dos presidentes do Grupo
Internacional de Gestão Sustentável de Recursos.
Mesmo não colocando em primeiro plano, como um dos fatores
mais
impactantes para a insustentabilidade da vida urbana no planeta, os
pesquisadores não conseguiram se livrar de falar da cruel
indústria carne. Sem levantar juízos de valor,
como
é característico de estudos
científicos, os
técnicos afirmaram que a criação de
gado é
responsável pela destruição de
áreas de
preservação, por impossibilitar a agricultura
(sabidamente mais eficaz para a alimentação
humana em se
tratando da quantidade de terras e de produção) e
por
consumir pelo menos 70% da água potável
disponível.
A
preocupação é ainda maior se
contabilizarmos a
crescente mudança da dieta, principalmente nos
países
emergentes. Com os olhos voltados para países desenvolvidos
como
os Estados Unidos, os consumidores voltaram suas bocas para as carnes e
os laticínios. "É claro que uma dieta
à base de
carne exige mais terra e fertilizantes e emite muito mais
dióxido de carbono do que uma dieta vegetariana", admitiu
Weizsaecker.
De acordo com o estudo, países ricos como Estados Unidos,
Japão e os a maioria dos europeus "exportam" grande parte
dos
danos ambientais para as nações em
desenvolvimento quando
importam alimentos e outros produtos. O aumento da
poluição em países como a China, por
exemplo,
é o resultado da industrialização
exagerada de
produtos consumidos no restante do mundo, principalmente pelas
nações mais abastadas.
Com isso, "talvez, a atual forma de estruturar os acordos sobre
redução das emissões seja obsoleta",
afirmou Ashok
Khosla, presidente do Grupo Internacional e da União
Internacional para a Conservação da Natureza. Ao
contrário do que pensam alguns, produtos e
serviços de
uso doméstico e de massa são os
responsáveis pelo
maior impacto ambiental, e não os automóveis.
"Governantes e economistas terão de abandonar sua
obsessão com o crescimento econômico como
solução para todos os problemas, escreveu o autor
australiano Clive Hamilton em "Réquiem para as
Espécies".
O crescimento se tornou um poderoso símbolo de
êxito e
modernidade, mas não o é, insistiu o pesquisador
da
Universidade Nacional Australiana.
Ficamos reféns de uma vontade política para frear
a fome
voraz da sociedade de consumo que avança sobre nossas
cabeças. Sobretudo, devemos cada vez mais abri-las para
novas
ideias de sustentabilidade. Nossos olhos não veem, mas a
Terra
sente.
QUEM
João Henrique Machado é
jornalista e editor do site Clube Amigos dos Animais.