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ARTIGO
Simplicidade sofisticada:
oito caminhos para uma vida sustentável

 
JOÃO HENRIQUE MACHADO

x17/06/2010 -Que tipo de estilo de vida podemos ter diante das necessidades de um planeta muito forte, mas com suas limitações? Que padrão de consumo nos é permitido para amenizar a agonia dos ecossistemas? Em quanto tempo e fazendo o que poderemos reverter o mal que fizemos para a Terra desde a revolução industrial do século 18?

Quando consideramos as transformações deste mundo que nos mostra alterações climáticas, escassez de água potável e alimentos e extinção de espécies, por exemplo, percebemos que a tarefa não se trata de uma simples mudança de marca de cosméticos. Se quisermos ajudar o planeta, mantê-lo vivo, precisamos atiçar nossa criatividade e aceitarmos um nível global de padrões de vida e de consumo.

Simplicidade não é um estilo de vida alternativo para alguns poucos ambientalistas. Tampouco é aquilo que algumas revistas que mostram uma existência mais simples, mas que aguçam um consumo exagerado de supérfluos. Se quisermos criar uma comunidade sustentável, os povos de nações mais ricas devem abraçar já uma simplicidade profunda e sofisticada. Os mais emergentes, como o caso do Brasil, devem mudar a noção de riqueza socioeconômica, de riqueza cultural, de riqueza ambiental. Simplicidade é ao mesmo tempo uma escolha pessoal, da comunidade, nacional e global.

E como é essa vida simples, essa simplicidade consciente? Como se faz? Não há nenhum livro de receitas. O mundo está se movendo em um campo novo e todos precisamos reinventar nossas práticas a cada dia, enquanto caminhamos.

A ambientalista norte-americana Duane Elgin, tentou responder boa parte das questões colocadas nessa longa introdução acima. Segue oito princípios para nos servir de mapa. Um guia vivo para buscarmos a sustentabilidade nas diversas planos de nossa caminhada. Vejamos:

1. Simplicidade organizada: precisamos ajudar aqueles que estão muito estressados, ocupados, que não conseguem enxergar o todo. Devemos excluir de nosso cotidiano todo o tipo de desordem, complicações e distrações triviais (materiais e imateriais). Devemos nos centrar no essencial para nossas vidas. Como disse Thoreau: "Nossa vida é estilhaçada pelo detalhe. Simplifique."

2. Simplicidade ecológica: devemos escolher maneiras de reduzir nosso peso sobre o planeta, aliviar nosso impacto sobre a teia da vida. O caminho a seguir lembra nossas raízes, de quem viveu há séculos uma vida mais conectada com a natureza, as estações, o cosmos. A simplicidade ecológica lembra uma profunda reverência e aceitação ao reino não-humano de plantas e animais. Eles têm dignidade e direitos também.

3. Simplicidade familiar: significa colocar o bem-estar da família à frente do materialismo e dos supérfluos. Uma vida verde começa na infância. Portanto, os pequenos devem ser educados com valores anti-consumismo. A simplicidade na família se revela muitas vezes em coisas invisíveis, como a qualidade do relacionamento. Essa linha também enquadra a preocupação com o planeta que será deixado para as gerações futuras.

4. Simplicidade compassiva: compaixão é a palavra chave para escolhas como o vegetarianismo ou o veganismo, certamente as formas de alimentação mais saudáveis para o homem e o planeta. Precisamos adquirir ou reforçar um sentimento de parentesco com o outro, com a outra espécie, com o meio ambiente. Disse Gandhi: "escolhemos viver simplesmente para que outros possam simplesmente viver". Conceitos como cooperação e justiça completam o tripé desse modo de simplicidade.

5. Simplicidade emocional: aborda a vida como uma meditação. É uma forma de cultivar nossa conexão direta com tudo o que existe. Por meio da meditação e da espiritualidade, podemos despertar mais facilmente para o universo vivo que nos rodeia e nos sustenta. Devemos estar mais preocupados com a riqueza intrínseca da vida do que com o modo de vida material. Ao cultivar uma conexão com a vida sentimental, tendemos a olhar para além das aparências e trazer a nossa vitalidade interior em relações de todos os tipos.

6. Simplicidade nos negócios: um novo tipo de economia está crescendo no mundo (leia meu artigo sobre economia verde), com produtos saudáveis e sustentáveis. Os serviços também estão mudando. Além de novos mercados, como produção de energia mais sustentável e dos diversos acessórios para casas ecológicas, levam em conta a energia e as emissões de carbono do transporte. O que vem por aí é uma grande onda de inovações com empresas e empregos verdes. Aprender a surfar nessa tsunami é fundamental.

7. Simplicidade cívica: uma vida mais leve e sustentável exige mudanças na vida pública. Transporte público, educação e um novo desenho das cidades são fundamentais. A política da simplicidade exige afinação de mídia para reforçar atitudes sustentáveis ou transformar a consciência coletiva de consumismo. As mudanças tendem a ser muito fortes nos governos, mas devem partir do individual, da forma como administramos nossa vida, de nossa família e de nossos grupos sociais.

8. Simplicidade frugal: significa que, ao cortar de gastos que não servem para nossas vidas e praticando a gestão habilidosa de nossas finanças pessoais, podemos conseguir uma maior independência financeira. Frugalidade e gestão financeira cuidadosa vão trazer maior liberdade financeira e oportunidade de escolher mais conscientemente o nosso caminho pela vida. Viver com menos também diminui o impacto do consumo sobre a Terra e libera recursos para os outros.

Como estas oito abordagens a crescente cultura da simplicidade cria uma ecologia resiliente e resistente. Aprender sobre como viver de modo mais sustentável e significa salvar vidas. Tal como acontece com outros ecossistemas, é a diversidade das expressões que promove a flexibilidade, adaptabilidade e resiliência. Há muitos caminhos para a simplicidade e este movimento de auto-organização tem um enorme potencial para crescer.
   
QUEM

João Henrique Machado é jornalista, editor do site Clube Amigos dos Animais e editor do jornal Pioneiro (Grupo RBS).
 
sitecaa@
yahoo.com.br

 

 
 
 
 
 

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