Filiado à Sociedade
Mundial de Proteção Animal (WSPA)
ARTIGO
A questão
ambiental mais imediata é a falta de ética
Nelson Tembra (em
12/12/2009)
A questão mais imediata
do meio ambiente é a
falta de ética. Isto não
é de hoje, não é
exclusividade de certos
projetos na Amazônia e
na prática não é para
qualquer um… Para não
dizerem que só ilustro
como maus exemplos em
meus artigos os projetos
da Vale do Rio Doce,
trago para reflexão e
análise o exemplo
bibliográfico oportuno,
do final da década de
90, bastante didático e
representativo do "modus
operandi" habitual,
citado por Vicente Rahn
Medaglia em "Sinópse da
Filosofia do Meio
Ambiente".
Esses conceitos estão
presentes em se
analisando um caso que
ficou conhecido como
mais um crime ambiental:
a Hidrelétrica de Barra
Grande, situada no Rio
Pelotas, divisa com o
estado de Santa
Catarina. Mais de
5.000ha de mata nativa
foram sacrificados em
nome de geração de
energia. Essa mata teria
um potencial de serviços
ambientais, como
captação de CO2,
regulação do clima,
regulação dos ciclos
hidrológicos, etc.,
perdido para sempre.
Para a construção da
Usina Hidrelétrica de
Barra Grande foi feito
"como manda a lei", um
Estudo de Impacto
Ambiental. O EIA foi
elaborado por uma
empresa, que,
surpreendentemente,
mentiu sobre a
composição vegetal da
área submersa pela
barragem. No EIA foi
dito que a área
comportava somente
capoeiras e capoeirões,
estágios de sucessão
ecológica que não são
protegidos por lei.
Ocorre que, de fato,
metade da área era
composta por vegetação
primária, ou seja, que
nunca havia sido
derrubada pelo homem ou
áreas em que se
encontrava em estágio
avançado de regeneração.
Como sabemos, essas duas
últimas formações são
protegidas por lei, mas
o IBAMA, órgão
responsável por
vistoriar o estudo e
verificar se ele estava
correto, não apurou
essas irregularidades.
O Ministério de Minas e
Energia comemorou mais
essa mega-hidrelétrica
como mais uma obra que
aceleraria o crescimento
econômico do país, mas
não o desenvolvimento
social. De fato, a
construção dessa
hidrelétrica, como todas
as demais, só foi
possibilitada pela
alegação, por parte do
poder público, de que
ela era de "interesse
público".
Esse exemplo nos fornece
elementos para que
tenhamos uma idéia
superficial sobre de que
forma os conceitos
filosóficos se
aplicariam. Em primeiro
lugar, tentemos
identificar a cadeia de
ações que aí está
envolvida. Essa cadeia é
estabelecida
simplesmente
perguntando-se o porquê
de cada ação.
Então, começando pelo
fato "foi construída uma
usina hidrelétrica que
irá inundar uma grande
floresta". Por quê?
"Pois se considera que a
energia elétrica gerada
é importante". Por quê?
"Pois com energia
elétrica a economia do
país pode crescer, e o
crescimento econômico é
algo importante". Por
quê? "Pois crescendo a
economia, o país tem
mais dinheiro, e ter
dinheiro é importante"
Por quê? "Pois dinheiro
traz felicidade". Em se
chegando nesse ponto,
não cabe mais perguntar
'Por quê?'. Não faz
sentido perguntar por
que se quer ser feliz. O
que se pode perguntar é
o que é e a quem
pertence a tal
felicidade, já que é
isso que determina toda
a escala de valores. Em
se assumindo que o
dinheiro traz
felicidade, fica então
justificada a ação da
construção da barragem.
Passemos ao modelo de
felicidade presente na
cadeia de justificativas
apresentada. Em primeiro
lugar, cabe notar que é
conseqüência direta da
construção da barragem a
inundação de 5.000ha de
mata considerados como
área prioritária para
conservação pelo próprio
Ministério do Meio
Ambiente. Assim, seja
qual a justificativa
dada ao empreendimento,
ela deve contemplar esse
fato.
Perguntemos quem é que
ganha dinheiro com esse
empreendimento. Pode-se
considerar que são os
trabalhadores da obra,
mas o dinheiro que eles
ganham é pouco. Quem de
fato ganha dinheiro às
claras são os
acionistas, já que a
barragem é um
empreendimento
totalmente privado.
Poder-se-ia dizer que
isso representa somente
a contraparte da geração
de energia, que é
considerada igualmente
um bem que contribui
para a felicidade dos
cidadãos que teriam
energia em suas casas.
Mas isso tampouco é o
caso, já que a
hidrelétrica foi
construída por grupos
industriais de produtos
eletro intensivos, como
alumínio (da Alcoa _
Aluminium Company of
America _ com metade das
ações do
empreendimento), cimento
e celulose (da
Votorantin, também
acionista), entre outros
grupos. Essa
hidrelétrica se coloca
em um contexto de
auto-geração, ou seja,
os produtos dessas
fábricas necessitam de
muita energia e são
muito rentáveis, logo, é
ótimo negócio
construírem suas
próprias hidrelétricas.
Colocados esses pontos,
a justificativa ética da
obra ficaria mais
complicada, já que, para
tanto, o sistema de
valores assumido deveria
considerar lícito
sacrificar um bem
público, o meio
ambiente, em nome de um
bem privado, o lucro de
algumas megacorporações
multinacionais. Isso só
seria factível se
assumíssemos que o
correto é que quem pode
mais, ou quem possui
mais poder, use todos os
meios que considere
cabíveis, possíveis,
impossíveis, imagináveis
e inimagináveis para
perseguir seus
interesses, doa a quem
doer.
Como poderíamos
denominar essa posição?
"Cratocentrismo" verde
(do grego krátos,
"força"), ou "Crematocentrismo"
amarelo (do grego
chrémata, "dinheiro"),
ou simplesmente "Cratocrematocentrismo"
cada vez mais verde e
amarelo?
Quem é:
Nelson
Tembra, Eng. Agrônomo, é colaborador e articulista do
EcoDebate