Alex Sander Alcântara - Agência Fapesp
O
destino de cães diagnosticados sorologicamente positivos para
leishmaniose é a eutanásia. Mas, de acordo com um estudo
realizado na Universidade Estadual Paulista (Unesp), em Botucatu, o
diagnóstico unicamente em exames sorológicos _
recomendado pelo Ministério da Saúde _ pode apresentar
falhas devido à possibilidade de ocorrências de
reações cruzadas com outros microorganismos.
Segundo a
pesquisa, foram analisados cães nos municípios de
Botucatu e Bauru, regiões consideradas como
não-endêmica e endêmica, respectivamente. O exame
convencional - sorologia pela técnica de
imunofluorescência indireta (RIFI) pode detectar o parasita
Leishmania sp. como o Trypanosoma cruzi, agente que causa a
doença de Chagas.
De acordo com professora Simone Baldini Lucheis, pesquisadora
científica da Agência Paulista de Tecnologia dos
Agronegócios (Apta), órgão da Secretaria de
Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo, para evitar
falsos positivos seria necessário realizar exames de
contraprova, como o exame parasitológico direto e a
reação em cadeia pela polimerase (PCR, na sigla em
inglês) _ uma técnica biomolecular que permite a
síntese enzimática in vitro de sequências do DNA.
"O exame
convencional para Leishmania pode apresentar resultados falsos
positivos pois, no momento do exame, o animal pode ter produzido
anticorpos contra outros parasitas que são da mesma
família da Leishmania, como Trypanosoma cruzi. Em muitos casos,
o animal só está infectado por um deles, mas o exame
acusa a presença do outro protozoário" disse à
Agência FAPESP .
O trabalho
foi publicado na revista Veterinary Parasitology. O estudo é
resultado da dissertação de mestrado de Marcella Zampoli
Troncarelli, da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da
Unesp de Botucatu, orientada por Simone com Bolsa da FAPESP.
Simone
coordena o projeto intitulado "Isolamento e reação em
cadeia pela polimerase (PCR) para Leptospira em amostras renais e
hepáticas de ovinos sorologicamente positivos e negativos para
leptospirose", que tem apoio da FAPESP na modalidade Auxílio
à Pesquisa _ Regular.
Na pesquisa, foram analisadas amostras de 100 cães do Centro de
Controle de Zoonoses, em Bauru, área considerada endêmica
para leismaniose visceral, e outros 100 cães do Canil Municipal
de Borucatu, município considerado indene para a doença.
De acordo com
Marcella, como há possibilidade de reações
cruzadas à sorologia, objetivou-se com o estudo a
elucidação diagnóstica por meio da
associação de três técnicas.A RIFI,
recomendada pelo Ministério da Saúde, além do
exame parasitológico direto, a partir de fragmentos de
fígado e baço, e o exame PCR.
"A
associação das três técnicas ajudou a
identificar os animais realmente infectados por Leishmania. E devido
à elevada sensibilidade do PCR foi possível
detectção de animais que haviam apresentado resultados
negativos à sorologia", disse à Agência FAPESP.
Os resultados
do exame sorológico apontaram que 16% dos 200 testes tiveram
resultado positivo para ambas as doenças. Nas amostras dos
cães de Bauru, 65% dos testes sorológicos foram positivos
para Leishmania e 40% para Trypanosoma cruzi. Entre os cães de
Botucatu, todas as amostras foram negativas para Leishmania e apenas 4%
foram positivas para o parasita da doença de Chagas.
"Quando
realizamos o exame parasitológico e o PCR para Leshmania, foram
obtidos, respectivamente, resultados positivos para 59% e 76% nas
amostras de fígado, e 51% e 72% nas amostras de baço dos
cães de Bauru. Nenhuma amostra foi positiva pela PCR para
pesquisa de T. cruzi. Estes dados reforçam a ocorrência de
reações cruzadas à sorologia", disse", disse a
veterinária, que atualmente faz o doutorado na Faculdade de
Medicina Veterinária e Zootecnia (FMVZ) da Unesp.
Outro
problema do exame sorológico, segundo ela, é que o
resultado pode apontar também os "falsos negativos" _ isto
é, o exame resulta negativo, mas na realidade o animal
está infectado. "Por estresse, imunodepressão causada
pela doença, ou fatores individuais, o animal pode não
produzir anticorpos em níveis detectáveis pelos testes
sorológicos. Pela PCR, regristramos um número maior de
animais infectados do que a própria sorologia. Ou seja, esse
exame elucidou os 'falsos negativos", afirmou Marcella.
Dos 33
cães que apresentavam anticorpos contra ambos os parasitas nos
testes sorológicos e também positivos nos
parasitológicos diretos e na PCR para Leishmania. "Os resultados
indicam que esses cães apresentavam leismaniose", disse.
O emprego
associados das três técnicas permitiu uma exatidão
elevada no diagnóstico da leishmaniose e da doença de
Chagas nos cães avaliados.
Segundo ela, devido à elevada especificidade da PCR, os
resultados são mais precisos. "O exame PCR é usado
predominantemente em pesquisas, porque é uma técnica
cara, embora ao longo dos anos o preço venha se reduzindo.
É um exame imprescindível e muito sensível porque
ele detecta o DNA do parasita", disse.
Urbanização da doença
A
leishmaniose visceral é causada pelo protozoário
Leishmania, que necessita do mosquito fletobomíneo (vetor) e de
um animal vertebrado (reservatório) para completar o seu ciclo
de vida.
O cão
é o principal reservatório da leishmaniose no ambiente
urbano. No entanto, a doença, que pode ser transmitida ao homem,
só ocorre por meio da picada do inseto. Segundo Simone, o
cão em particular é o principal reservatório do
parasita porque o mosquito se adaptou aos ambientes urbanos e passou a
utilizar os cães para o repasto sanguíneo.
"A
doença era registrada principalmente em áreas rurais, mas
nas últimas décadas vem invadindo os grandes centros na
medida em que o mosquito vetor tem se adaptado melhor aos ambientes
urbanos devido ao desequilíbrio ecológico", explicou a
professora Simone junto ao Programa de
Pós-Graduação da FMVZ e ao Programa de
Pós-Graduação em Doenças Tropicais da
Faculdade de Medicina de Botucatu, também da Unesp.
Os sinais
clínicos nos cães incluem alterações na
pele, como nódulos subcutâneos e erosões,
úlceras, perda do peso progressiva, hemorragias, diarreia,
aumento significante do tamanho das unhas, alterações
oculares e articulares, anemia, febre, vômitos, apatia, entre
outros.
Simone aponta
que maior quantidade do parasita, ocorre principalmente na pele dos
cães, facilitando a transmissão do protozoário ao
mosquito vetor. "O cão, assim como o gato, é uma fonte de
infecção para Leishmania e Trypanosoma cruzi. E, como
estão mais próximos do homem _ e das crianças _,
há perigo de transmissão dessas enfermidades para a
população humana", disse.
Segundo ela,
o estudo é importante para a escolha da técnica correta
de diagnóstico. "Compreender o ciclo epidemiológico da
doença é tarefa de grande importância, pois o
problema da leishmaniose não será resolvido apenas com a
eutanásia de animais", destacou.
Para ler o
artigo Leishmania spp. and/or Trypanosoma cruzi diagnosis in dogs from
endemic and nonendemic areas for canine visceral leishmaniasis , de
Marcella Zampoli Troncarelli, Simone Baldini Lucheis e outros, clique aqui.