Filiado à Sociedade
Mundial de Proteção Animal (WSPA)
MEIO AMBIENTE
A crise da
água e suas causas.
THIAGO ROMERO - AGÊNCIA
FAPESP
29/05/2009 - Diversos
pesquisadores e
especialistas têm
atribuído a problemática
da água a dois fatores
fundamentais: escassez e
gestão. A "crise da
água" vivida atualmente
pela humanidade se
deveria a uma ou outra
variável.
Para Adolpho José Melfi,
professor titular da
Escola Superior de
Agricultura Luiz de
Queiroz (Esalq) da
Universidade de São
Paulo (USP), no entanto,
não se trata de um
problema causado apenas
pela gestão ou pela
escassez do recurso
natural, mas sim pelos
dois fatores intimamente
interligados.
"É inegável que hoje
temos um problema
causado pela escassez,
devido principalmente à
distribuição desigual de
água no planeta e
agravado pela má gestão,
que sempre foi pontual e
setorial, deixando de
ser integrada para
resolver a questão das
bacias hidrográficas
brasileiras de modo mais
sistêmico", disse Melfi
à Agência FAPESP.
O reitor da USP de 2001
a 2005 e que também já
integrou o Conselho
Superior da FAPESP,
esteve na semana passada
na Fundação, como um dos
palestrantes do workshop
que sucedeu a cerimônia
de assinatura do termo
de cooperação entre a
FAPESP e a Sabesp para
apoio à pesquisas em
recursos hídricos e
saneamento. Melfi falou
sobre "Água: Pesquisa
para a sustentabilidade".
"As consequências dessa
crise são claras para
países como o Brasil.
Ainda que tenhamos 14%
de todos os recursos
hídricos do mundo,
grandes cidades, como
São Paulo, estão no
limite da escassez",
disse.
Ao enfatizar as
consequências de
problemas de gestão e de
escassez, que para ele
representam um dos
maiores desafios para as
próximas décadas, Melfi
ressaltou que a soma de
todas as atividades
humanas, sejam
agrícolas, industriais,
de serviços, lazer e
outras, resulta em um
consumo aproximado de 20
milhões de litros por
ano por habitante do
planeta.
Esse consumo elevado faz
com que pelo memos 26
países se encontrem
atualmente no que o
pesquisador define como
"situação de penúria",
sendo que mais 50 devem
atingir esse patamar até
a metade deste século.
Melfi é membro da
Academia Brasileira de
Ciências, da Academia de
Ciências da América
Latina, da Academia de
Ciências do Estado de
São Paulo, da Académie
d'Agriculture de France
e da Académie des
Sciences d'Outre Mer,
também na França.
É detentor de vários
prêmios acadêmicos, como
a Medalha de Prata de
Geologia, a Gran Cruz do
Mérito Científico, a
Palma Acadêmica do
governo francês e o
prêmio de Geocientista
do Ano de 2004 da
Academia de Ciências
para o Mundo em
Desenvolvimento. Desde
2007 é diretor do Centro
Brasileiro de Estudos da
América Latina da
Fundação Memorial da
América Latina.
Segundo Melfi, com
relação ao uso da água
nas sociedades modernas,
em média 69% são para
atividades agrícolas,
23% para a indústria e
8% para atividades
urbanas. "Mas temos
observado que mesmo
países com grande
quantidade de água podem
ter regiões com pouca
disponibilidade do
recurso. Entre os
fatores que mais
explicam a distribuição
heterogênea da água
estão a ocupação do solo
e as variações do
clima", apontou.
No Brasil, segundo ele,
o uso mais intenso está
na irrigação de
culturas, com 69%,
seguido pela utilização
para a criação animal
(11%), uso urbano (11%),
industrial (7%) e rural
(2%).
Melfi usou também dados
do Relatório sobre
Desenvolvimento Humano
do Programa das Nações
Unidas para o
Desenvolvimento (PNUD)
de 2006, que aponta que
1,2 bilhão de pessoas
estariam atingidas
diretamente pela
escassez de água.
De acordo com o
relatório, 2,7 bilhões
devem ser atingidas até
2025, 2,6 bilhões não
contam com saneamento
básico e 1,8 milhão de
crianças morrem
anualmente por infecções
transmitidas por água
insalubre.
De acordo com Melfi,
esse panorama tende a se
agravar, uma vez que a
demanda por água
continua a crescer
devido ao aumento
populacional de cerca de
90 milhões de habitantes
por ano no mundo,
alidado a fatores como a
necessidade de produzir
maior quantidade de
alimentos e a rápida
industrialização dos
países em
desenvolvimento, nos
quais a indústria
aumentou o consumo de
água em cerca de 30
vezes apenas no século
20.
Pesquisa básica e
aplicada
Para o enfrentamento da
crise, Melfi sugere que
uma das principais
saídas estaria na
realização de mais
pesquisas científicas,
tanto básicas como
aplicadas, que levem,
sobretudo, à redução do
consumo e ao reúso de
água.
"A pesquisa sobre o
assunto é fundamental e
deve ser
multidisciplinar,
envolvendo todos os
elementos possíveis que
constituem a paisagem
natural e os sistemas
hídricos. Os estudos
precisam ainda ser
sistemáticos no sentido
do constante
monitoramento dos
resultados. Nesse
sentido o acordo
FAPESP-Sabesp é
fantástico por garantir
a continuidade dos
projetos, que deverão
ter longa duração",
disse.
O termo de cooperação
entre as instituições
prevê um investimento de
até R$ 50 milhões, sendo
metade de cada uma, ao
longo de cinco anos,
voltados para o
financiamento de
projetos propostos por
pesquisadores de
universidades e
institutos de pesquisa
paulistas e da empresa
de saneamento.
Serão apoiadas pesquisas
em sete principais eixo
temáticos: "Tecnologia
de membranas filtrantes
nas estações de
tratamento de água e de
esgoto"; "Alternativas
de tratamento,
disposição e utilização
de lodo de estações de
tratamento de água e
estações de tratamento
de esgotos"; "Novas
tecnologias para
implantação, operação e
manutenção de sistemas
de distribuição de água
e coleta de esgoto";
"Novas tecnologias para
melhorias dos processos
de operações unitárias";
"Monitoramento da
qualidade da água";
"Eficiência energética";
e "Economia do
saneamento".
QUEM
Para Adolpho Melfi,
professor da Esalq e ex-reitor da USP, a problemática da
água se deve simultaneamente à escassez e à má gestão do
recurso natural.