EDITORIAL DO JORNAL ZERO HORA DE 5/06/2010

A humanidade celebra neste
sábado um lúgubre Dia Mundial do Meio Ambiente marcado
pelas imagens dramáticas de aves e animais marinhos cobertos
pelo petróleo que vaza sem cessar há quase dois meses no
Golfo do México. Sob uma sombra de preocupação, o
mundo assiste ao maior desastre ambiental da história dos
Estados Unidos: mais de 150 milhões de litros de óleo
espalhados nas águas do Oceano, na costa do Estado americano de
Louisiana, já ameaçando a Flórida. A imensa mancha
negra no mar é resultante de um vazamento submarino que
começou com uma explosão acidental na plataforma de
extração Deepwater Horizon, que provocou a morte de 11
pessoas e danificou as válvulas de segurança da
tubulação, por onde passaram a escoar 19eil barris de
petróleo por dia.
O episódio é tão significativo que deveria
provocar uma reflexão internacional sobre o modelo de
desenvolvimento em curso na atual sociedade humana. O planeta ferido
está emitindo um grito de alerta que não pode mais ser
ignorado pelas lideranças mundiais e pelos cidadãos de
todas as nacionalidades.
Veja-se os antecedentes da tragédia. Algumas semanas antes da
explosão na plataforma, o presidente norte-americano Barack
Obama autorizara a ampliação da prospecção
de petróleo em águas profundas para atender ao aumento
crescente da demanda por energia no país, resultante da retomada
do crescimento após uma crise econômica que também
teve proporções planetárias. Os Estados Unidos
são campeões mundiais de consumo de petróleo, com
aproximadamente 3 bilhões de litros por dia. De acordo com
estimativas oficiais, 6% do petróleo produzido no mundo
provém do fundo do mar. Só o Brasil extrai do oceano 90%
do petróleo que produz _ e, como se sabe, prepara-se para
mergulhar mais fundo em busca do óleo do pré-sal.
O acidente do Golfo do México certamente provocará uma
revisão global na tecnologia de extração de
petróleo em águas profundas, com aumento dos
procedimentos de segurança e encarecimento de todo o processo. O
Brasil já tem antecedentes preocupantes, entre os quais o
vazamento da refinaria Duque de Caxias, em 2000, que enlameou de
óleo a Baía da Guanabara, e a explosão da
plataforma P-36 na Bacia de Campos, em 2001, que causou a morte de 11
pessoas. Temos, portanto, que prestar muita atenção no
desastre norte-americano.
O petróleo ainda é a principal fonte de energia do mundo.
Foi o combustível da expansão industrial do fim do
século 19, o propulsor da economia do século 20 e chega
ao século 21 como uma riqueza natural prestes a se tornar cada
vez mais rara. É uma fonte não renovável,
produzida em condições especiais de temperatura e
pressão ao longo de milhões de anos. Fatalmente vai
acabar. Por isso, e também para prevenir danos ecológicos
irreparáveis ao planeta, as nações precisam
investir decididamente em alternativas renováveis, como energia
solar, energia eólica e energia atômica. É urgente,
também, que cada pessoa faça a sua parte, não
apenas desenvolvendo ações inovadoras como as que
estão sendo mostradas no caderno Nosso Mundo Sustentável,
encartado nesta edição, mas igualmente adotando
comportamentos ecológicos adequados no dia a dia de suas vidas.
Temos que aprender a conciliar desenvolvimento com
preservação ambiental, sem cair nas armadilhas do
catastrofismo, mas também sem acreditar _ como defendem os
desenvolvimentistas radicais _ que não somos capazes de fazer
mal ao planeta. Somos, sim. As aves negras do Golfo do México,
buscando desesperadamente um pouco de ar para sobreviver por mais
alguns minutos, estão aí para provar o quanto a
ganância e a incúria humanas podem ser danosas para a vida.
Se não prestarmos atenção no sofrimento dos
animais surpreendidos pela armadilha de lama pegajosa, se não
nos dermos conta de que os pescadores do golfo ficaram sem o seu
ganha-pão, se acharmos que o problema é apenas dos
norte-americanos, nosso futuro também estará
ameaçado. O planeta é o casulo da humanidade _ cada vez
que ele é ferido, as vidas futuras correm o risco de não
vingar.