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VIVISSECÇÃO
Medicina da Ufrgs ensina sem usar animais
ULISSES A. NENÊ
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Médico e professor Geraldo Sidiomar
Duarte mostra tórax artificial que
substitui uso de animais |
13/07/2009 - O caozinho é
trazido do canil e
chega faceiro; caminha até o grupo de alunos
de medicina e lambe as pernas de um deles. O
clima na sala fica pesado e ninguém quer
anestesiar e cortar o bichinho. Alguns
estudantes, constrangidos, ameaçam ir
embora. Cenas como esta ou parecidas
aconteceram por diversas vezes, nos muitos
anos em que animais foram usados nas aulas
práticas da Faculdade de Medicina da
Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Famed/Ufrgs).
Era assim, anestesiando,
cortando e costurando animais vivos (vivissecação),
depois sacrificados, que os futuros médicos
aprendiam as técnicas operatórias e outros
conteúdos. Mas isto mudou em abril de 2007,
quando a Famed tornou-se a primeira
faculdade de medicina do Brasil a abolir
totalmente o uso de animais no ensino de
graduação, no que foi seguida logo depois
pela Faculdade de Medicina do ABC (SP).
Não se está falando de uma
instituição qualquer: fundada há 111 anos, a
Famed é considerada a melhor faculdade de
medicina do país, tendo conquistado o
primeiro lugar no Exame Nacional de
Desempenho Estudantil de 2008 (Enade). O
conflito ético foi o principal motivo para
que o curso abandonasse a vivissecação,
adotando o emprego de modelos anatômicos
artificiais que imitam órgãos e tecidos
humanos.
Aprovação dos alunos
Passados dois anos, a medida tem a total
aprovação de alunos e professores, que
garantem não haver nenhum prejuízo para o
aprendizado médico. Aluna do quarto
semestre, Sabrina de Noronha, 22 anos, diz
que sequer pensava que pudesse haver a
utilização de animais quando ingressou na
medicina. Ela já cursou disciplinas
importantes, como fisiologia, anatomia,
bioquímica, histologia, onde aconteciam
aulas práticas com vivissecação, e não
precisou passar por esta experiência.
As aulas de anatomia, por exemplo, só
utilizam cadáveres humanos. “Não tivemos
contato com animais em nenhum momento.
Fiquei sabendo há pouco tempo que outras
faculdades usam animais e achei isso
horrível; a faculdade existe para formar
profissionais que vão ajudar pessoas e para
isso não precisamos maltratar outros seres,
não seria ético; a gente tem tanto direito à
vida quanto eles (animais), não vejo
diferença”, diz a aluna.
Sua colega Bárbara Kipp, 22
anos, coordenadora-geral do Diretório
Central de Estudantes (DCE) da Ufrgs
concorda. Segundo ela, há outros métodos já
bem desenvolvidos para se aprender as
técnicas médicas sem precisar recorrer à
vivissecação dos cães, coelhos e outros
bichos. “Nunca usei animais no curso e estou
aprendendo muito bem; não me sentiria à
vontade se isso acontecesse e também não
vejo ninguém, nenhum colega, sentindo
falta”, afirma Bárbara.
“Abolimos o uso de animais
porque hoje não se precisa mais disso”,
destaca o diretor da Famed, o médico
endocrinologista Mauro Antônio Czepielewski.
Não faltaram razões, pois havia alunos que
não concordavam com o sacrifício dos cães e
outros bichos nas aulas. Além da questão
ética, a pressão das entidades protetoras
dos animais era cada vez maior, conta o
diretor.
Também estava cada vez mais
difícil conseguir os animais para servirem
de cobaias, havendo ainda o problema de
alojá-los e depois descartá-los, após serem
sacrificados. Por isso, este procedimento
vinha diminuindo ano á ano e quando foi
abolido, em 2007, cerca de cinco ou seis
animais ainda eram retalhados por semana nas
mesas de cirurgia do curso.
Modelos artificiais
A mudança foi bastante discutida, e resultou
na implantação de um Laboratório de Técnica
Operatória, que funciona apenas com réplicas
artificiais das partes do corpo humano,
explica o diretor. O projeto todo, com
reforma de instalações e aquisição dos
modelos, importados, custou cerca de R$ 300
mil, com recursos da própria Ufrgs, Famed,
Hospital de Clínicas (o hospital
universitário) e Promed, um programa do
Ministério da Saúde que incentiva mudanças
nos currículos dos cursos de medicina. (clique
aqui para ver fotos)
O médico Geraldo Sidiomar Duarte, que deixou
o cargo de diretor do Departamento de
Cirurgia no início do mês, foi o responsável
pela implantação do moderno laboratório.
“Era uma deficiência grave do curso (a
técnica operatória), tínhamos problemas para
obter o animal, onde deixá-los, os cuidados
pós-operatórios e o Ministério Público e as
entidades protetoras vinham se manifestando,
havia muitas objeções que criaram um
conjunto de dificuldades”, relata.
O trabalho era considerado insalubre e
aconteciam muitos acidentes biológicos
(quando alunos se cortam acidentalmente),
com risco de infecção pelo sangue dos
animais. Agora, o local é totalmente
asséptico, não se vê uma gota de sangue no
espaço de 120 metros quadrados. Duarte
mostra uma peça sintética que imita
perfeitamente a pele humana, inclusive na
textura, onde os alunos podem fazer e
refazer várias vezes cortes superficiais ou
profundos, costuras e pontos. E os acidentes
não acontecem mais, o risco é zero,
acrescenta.
Outra peça imita um intestino, a ser
costurado. Numa mesa ao lado, um tórax
artificial permite o treino de punções em
vasos profundos, como uma imitação da veia
jugular cuja pulsação é possível sentir ao
toque. Membros sintéticos apresentam
ferimentos diversos a serem tratados
cirurgicamente. O que parece ser apenas uma
pequena caixa, com uma cobertura da cor da
pele, representa a cavidade abdominal para a
prática de cirurgia.
O médico e professor mostra
catálogos com uma infinidade de órgãos
artificiais que podem ser adquiridos: “Há
modelos artificiais para todos os tipos de
treinamento, pode-se montar um laboratório
gigantesco com eles”, diz Duarte. “Estamos
muito satisfeitos, e os alunos muito mais”,
completa.
“Isso qualificou enormemente
os alunos”, reforça Mauro Czepielewski, o
diretor do curso. Ele acredita que esta é
uma tendência irreversível e que o emprego
de modelos artificiais acabará chegando a
todas as faculdades de medicina, em
substituição aos animais. Diversos cursos,
do Rio Grande do Sul e de outros estados, já
pediram informações sobre o laboratório da
Famed. “A consciência do não-uso de animais
é importante para fortalecer uma visão de
valorização da vida”, afirma.
O diretor apenas considera muito difícil
substituir animais na área de pesquisa, na
pós-graduação. Mas garante que os
procedimentos, neste caso, seguem rigorosos
requisitos do Conselho Nacional de Ética em
Pesquisa, com uso controlado e número
limitado dos animais que servem de cobaias.
Objeção de consciência
O debate ético sobre
vivissecação ganhou impulso no Estado a
partir da atitude de um aluno do curso de
Biologia, Róber Bachinski, que ingressou na
justiça, em 2007, para ser dispensado das
aulas que sacrificam animais, alegando
objeção de consciência. Chegou a ganhar uma
liminar, mas ela foi cassada, mediante
recurso da Ufrgs, e o caso segue tramitando
no Judiciário.
Segundo ele, a abolição do
uso de animais na Famed reflete uma
tendência mundial: “Ao abolir o uso de
animais a Famed mais uma vez demonstra a sua
qualidade no ensino e o seu avanço ético e
metodológico. Espero que outras
universidades e cursos também sigam esse
modelo e que esses métodos de ensino sejam
divulgados”.
Bachinski diz ainda que a abolição do uso de
animais em disciplinas da medicina comprova
que é possível a sua abolição em outros
cursos com disciplinas equivalentes, como na
farmácia, educação física, psicologia,
enfermagem, biologia, veterinária. Na
opinião do estudante, um novo paradigma
educacional precisa ser criado, levando em
conta não apenas o bem estar da sociedade e
do aluno, mas também o respeito aos
direitos básicos dos outros animais.
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